segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

[TEXTO] Sobre as mudanças que o mundo me impôs

Às vezes eu paro, olho em volta e sinto um vazio enorme, é quando eu sei que preciso escrever. O bom desse momento repentino é que sei que eu realmente estou escrevendo com meu coração totalmente aberto. É como se eu me partisse em mil pedaços pra juntar e tentar achar a solução desse quebra cabeças no final do texto.
Há uns anos eu era revoltada com a vida, hoje meu grau de tolerância sobre as imposições do mundo aumentou bastante. Tem horas que eu me orgulho tanto das coisas que conquistei, mas eu sinto esse vazio enorme que já citei, quando eu lembro dos sonhos que abdiquei no caminho. Quem me achava grossa antes adoraria ver o quão amorzinho eu me tornei. Eu mudei tanto e me adaptei tanto simplesmente por ouvir mais a opinião dos outros do que o meu coração, nesse processo eu perdi tempo, amigos, dinheiro e uma parte da minha personalidade - por isso tantos textos relembrando aquilo que fui um dia. E as poucas vezes que ouvi meu coração errei muitoi pra aprender.
O fato é que eu não me reconheço mais em grande parte dos dias; quando a moça do ônibus tem cabelo colorido mas eu não posso porque vou perder o emprego, quando eu lembro que faço uma faculdade por causa do salário que ela vai me render em vez de fazer aquilo que amo ganhando pouco, quando eu acordo e durmo pensando em largar o emprego mas eu lembro das contas pra pagar, quando eu recordo dos altos papos super reflexivos no recreio da escola e hoje me pego falando que não adianta de nada.
Eu perdi em poucos anos coisas das quais eu mais prezava, e isso faz parte do que sou agora, mas faz pouco tempo que consegui finalmente assumir isso porque em certos momentos a minha conformidade me incomoda. Eu lembro um pouco do que eu costumava ser quando eu escuto aquela música antiga ou realizo coisas que eu desejava naquela época.
É difícil assumir pra si mesmo que as coisas mudam dentro da gente, que alguns vazios aparecem do nada pra lembrar que ainda possuímos sonhos. Nesse processo de aceitar as mudanças eu achei que muitas coisas dentro de mim iam morrer, mas eu percebi que no fim das contas elas ainda estão bem vivas, só esperando o momento certo de despertar e fazer acontecer. Parte de amadurecer é isso, aceitar que alguns sonhos que desejávamos de imediato tem o tempo certo pra acontecer.

(Jenifer Alana dos Santos)

domingo, 8 de janeiro de 2017

[TEXTO] Acumulados de memórias

Demorei pra aceitar que as pessoas nos deixam memórias. É claro que ela lembra dos momentos que passou com você, não dá pra deletar as lembranças nem dos piores deles, assim ela escolheu manter os bons como prioridade. Você deve se lembrar daquela noite em que ela chorou nos seus braços e do dia em que ela finalmente riu de uma de suas piadas mais bobas, assim como ela lembra do dia em que partiu seu coração em pedaços que você jamais imaginava que teria.
Eu nunca entendi como nós conseguimos fazer planos sobre o futuro e no dia seguinte cuspir um na cara do outro coisas que não nos dizem respeito. Damos importância a meros detalhes em vez de cultivarmos o verdadeiro amor, engrandecemos o orgulho simplesmente para estarmos em paz com nosso próprio ego porém sempre em confusão com os desejos da nossa alma. Nos iludem com a fantasia de um romance perfeito onde demostrar afeto é sinal de fraqueza e choramos sozinhos a falta de pessoas reais ao nosso redor.
Essa coisa sobre as lembranças e sobre como de um dia pro outro alguém essencial em nossas vidas deixa de fazer falta, sempre me incomodou. Porque apesar de não sentir mais nada, nós sempre nos lembraremos dos muitos momentos em que estivemos felizes ao lado de pessoas que nos fizeram sorrir e chorar na mesma proporção.
É claro que eu lembro da minha melhor amiga de 7 anos atrás, eu também lembro do dia em que olhei meu primeiro amor nos olhos e quis dizer que eu o amava mas por saber que não seria recíproco eu escolhi guardar pra mim, eu lembro do meu primeiro beijo e como eu achei mágico, lembro do meu primeiro dia no emprego e como eu quis sair correndo, lembro de quando eu conheci meu ex e como mudamos ao longo do tempo. Somos todos um acumulado de memórias e eu me sinto muito feliz em saber que minha melhor amiga de 2010 está se amando mais e que meu primeiro amor ainda continua sonhando, apesar de achar uma lástima o nosso distanciamento. Hoje eu acho meu primeiro beijo uma droga e ainda quero correr quando chego todos os dias no trabalho. E sou grata por todos esses momentos que, por mais que às vezes eu implore pra deletar, fazem parte do que sou hoje.
Depois que eu aceitei que as pessoas nos deixam memórias eu voltei a me encontrar. Somos todos nós mesmos com pequenas doses de amor, afeto, rancor, tristeza, alegria e outros emaranhados de sentimentos que os amigos e amores nos regaram e cultivamos.

(Jenifer Alana dos Santos)