domingo, 24 de julho de 2016

[TEXTO] 2.0

Passei o dia todo enrolando pra escrever sobre como eu me senti ao sentar na mesa pra almoçar com os meus pai hoje. Eu fiz 20 anos ontem e me sinto deslocada por causa do meu tamanho na cadeira, eu não sou mais uma criança, nem adolescente que precisa dos pais pra tudo e qualquer coisa. Eles não precisam mais trocar minhas fraldas, nem me levar a escola ou pagar minhas contas. Isso é extremamente desconfortável porque eu tô do tamanho deles e pela primeira vez eu me vi assim e pensei que eles não tem mais que ter responsabilidade por mim. Não que eu seja irresponsável ou que até os 19 eu precisasse, mas parece que agora eu tô mais perto da idade de sair de casa e viver minha vida sozinha, e quem dera o dinheiro desse ou que eu arriscasse mais.
Eu acordei hoje, escovei os dentes, tomei café, escovei os dente de novo, troque de roupa, prendi o cabelo, coloquei um óculos de sol e perguntei: "Mãe, quer alguma coisa? Vou no mercado." E isso pra mim foi o início da paranoia do almoço. Eu trabalho numa loja de móveis, eletrodomésticos, etc, e toda vez que eu entro lá eu fico babando nos sofás e armários e mesas de jantar e geladeiras... Eu nem olho os celulares e chapinhas e câmeras fotográficas. Eu vou no mercado e pesquiso os preços das verduras e já não tenho mais tanto estômago pros salgadinhos e bolachas recheadas. Eu fico louca quando vejo qualquer 'tapoer', ainda mais quando ela tem conjunto da mesma cor. Eu gosto de panos de prato e toda vez que eu vejo uma promoção de lençol eu tenho que avisar a minha mãe. Eu tô me sentindo velha.
E isso tudo não veio hoje, aos 20. Isso vem se acumulando desde o dia que meu pai me mandou escovar os dentes depois do almoço aos 12 anos, quando eu já sabia que eu tinha que fazer sem ninguém me ensinar, e eu me irritei. Vem desde o dia que eu atravessei a cidade andando sentindo a brisa da independência, Eu fui uma adolescente misturada com uma responsabilidade de adulta admirável. Isso vem desde a primeira série quando a professora perguntou se eu era repetente por causa do meu tamanho. Vem desde o dia que aos 13 anos minha melhor amiga tinhas uns 18 porque a minha cabeça era "madura demais".
Eu fiquei cansada durante um tempo de toda essa cobrança de responsabilidade que eu sempre tive e fiz muita bobeira, mas eu me contive demais também. Eu só sei que agora eu acho que porque minha mãe saiu de casa aos 18 eu tô um pouco atrasada, mas até que feliz. E espero não ser expulsa de casa, mas também espero que pra ir morar sozinha eu não precise ser. Meus pais não precisam mais cuidar de mim, eu to grande demais pra ter colo, continuo irritada e sozinha. Eu fiz 20 anos e a crise dos 20 que eu achei que não ia ter tá tomando conta de mim agora. Eu não quero ficar velha e quero sair de casa. E não sei nem como terminar o texto, desculpe escrever demais.

"Quero colo! Vou fugir de casa
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo, tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três"

(Jenifer Alana dos Santos)

domingo, 17 de julho de 2016

[TEXTO] Desacerto

Eu meio que me envolvi num acidente de carro ontem. 'Meio que' porque meu pai tava dirigindo e eu agradeci por um momento e no outro alguém bateu na traseira do carro. A vida é cheia desses outros momentos, cheia de desacertos.
Eu acordei de manhã e enrolei na cama porque eu imaginava que meu pai me levaria pro trabalho. Eu poderia ter dito não e ido de ônibus. Então eu me arrumei mais rápido do que de costume, sentei no sofá. Eu poderia ter demorado um pouco mais. Aí meu pai se arrumou rápido e tomou café rápido. Ele não precisava correr pra sair de casa. Então saímos. Foi quando minha mãe chamou e disse que meu pai tava esquecendo a carteira, isso atrasou um minuto. Isso poderia nos ter feito voltar. A gente foi conversando tranquilos pelo caminho.
E de repente aparece um pedestre, um motorista gentil para o carro na faixa. Meu pai está atrás dele e para a tempo. Mas alguém vem atrás e não se sabe o que acontece, mas não consegue parar. E a gente sente aquele 'tranco'.
O que eu quero dizer com tudo isso é que ás  vezes essas coisas acontecem. Mas muitas delas deixam de acontecer e nem ficamos sabendo. A maioria delas, na verdade. E agora eu sinto um aperto no coração que talvez seja um daqueles empurrões que a vida dá pra lembrar que talvez eu não passe de hoje, e por isso eu devo viver intensamente. Devemos...

(Jenifer Alana dos Santos)

sábado, 2 de julho de 2016

[TEXTO] Quase 20

Eu gosto de pensar que pessoas leves ainda existam. Que o amor de verdade ainda exista, apesar das minhas muitas maneiras de afastar pessoas e nunca me achar merecedora o suficiente. De vez em quando eu sou bem estourada, e reclamo da vida frequentemente, mas eu sei ser calma e boa - só não encontro pessoas realmente dignas disso. A minha calmaria é a melhor coisa que as pessoas podem ter de mim.
A vida é constantemente uma merda e aos quase 20 anos a gente se dá conta que só piora. Então a gente se despede das cartas não enviadas, das palavras não ditas e começa a querer falar tudo que tem vontade pra n se arrepender depois, esquecendo que tem coisas que realmente é melhor não falar nem engolir, mas deixar ir. Com quase 20 a gente aprende que temos que preparar o guarda-chuva quando já temos conhecimento de certas tempestades. Com quase 20 a gente aprende que nem metade da vida passou, nem metade das pessoas passaram.
Com quase 20 você se vê encurralado num quase nada que você se tornou, onde não há amigos de escola, nem amor pra vida toda, nem emprego que te faça feliz, nem certeza de qual o caminho que você quer seguir.
Por isso tudo que eu gosto de pensar que pessoas leves ainda existam e queiram passar por mim. Porque é o que me mantêm  a esperança. Esperança que ainda se têm aos quase 20. A única coisa verdadeira que se tem.

(Jenifer Alana dos Santos)