domingo, 10 de janeiro de 2016

[TEXTO] Mais um sobre estar no fundo do poço

Não vai parar de chover. A cada gota sente que vai transbordar, e não há alegria. Não sabe o que é. Não há verdade, nem respostas, só este buraco que insiste em incomodar querendo ser preenchido. E deu um jeito, preencheu. Preencheu de chuva, sem cor, sem cheiro e sem gosto para não se acostumar, para não errar de novo, para saciar uma sede do doce da vida temporariamente enquanto não encontra a dose certa, para não lembrar do perfume que agora está escondido na memória e para fazer com que o poço parasse de ficar mais fundo.
Ah, mas sabia que não funcionaria por muito tempo... não vai parar de chover, assim como não vai parar de ter sede, assim como não vai parar de errar e vai lembrar do perfume. No desespero, se afunda no poço, chega a última gota d'agua, transborda. Mas não  é de alegria. Não sabe mais nem o que é, o que se tornou. Afogou.

(Jenifer Alana Santos)